Estive 35 anos a trabalhar na Alemanha e aquele foi o melhor dia que tive na Alemanha. Estive lá sim senhora, todos com os martelos, daqueles vrruumm-vrrrumm-vvrrum-pum-pum para deitar o muro abaixo - ainda sou do tempo do Willie Brandt, a juventude toda apoiava, os meetings e isso, os jovens todos, e se as alemãs são boas - éramos 21, o grupo dos 21, fazíamos sardinhadas no Gärten, sardinha congelada, mas nesse dia lá fomos - já antes eu era de esquerda, menos quando estava lá o Nobre Guedes, um jovem mesmo como deve de ser, votava CDS, agora só muda uma letra - íamos com as grades de cerveja e as bananas, umas sandes, para dar aos desgraçados, mas era difícil entendê-los porque do lado de cá ninguém falava russo - a Alemanha era tão bom que arranjávamos mobílias novas no lixo, os turcos é que estragaram o negócio todo, os alemães, os de do lado de cá, mudavam de carro e de mobília todos os anos, o trabalho todo pago à hora, quanto mais bulisses mais ganhavas - chegámos lá e foi uma alegria, os desgraçados comeram e beberam, então as bananas, nunca tinham visto
O VERMELHO E O NEGRO
Ouvir, ler e dar a ler.
11.23.2009
Erholungspark Marzahn mit den "Gärten der Welt", Marzahn, Berlin
Estive 35 anos a trabalhar na Alemanha e aquele foi o melhor dia que tive na Alemanha. Estive lá sim senhora, todos com os martelos, daqueles vrruumm-vrrrumm-vvrrum-pum-pum para deitar o muro abaixo - ainda sou do tempo do Willie Brandt, a juventude toda apoiava, os meetings e isso, os jovens todos, e se as alemãs são boas - éramos 21, o grupo dos 21, fazíamos sardinhadas no Gärten, sardinha congelada, mas nesse dia lá fomos - já antes eu era de esquerda, menos quando estava lá o Nobre Guedes, um jovem mesmo como deve de ser, votava CDS, agora só muda uma letra - íamos com as grades de cerveja e as bananas, umas sandes, para dar aos desgraçados, mas era difícil entendê-los porque do lado de cá ninguém falava russo - a Alemanha era tão bom que arranjávamos mobílias novas no lixo, os turcos é que estragaram o negócio todo, os alemães, os de do lado de cá, mudavam de carro e de mobília todos os anos, o trabalho todo pago à hora, quanto mais bulisses mais ganhavas - chegámos lá e foi uma alegria, os desgraçados comeram e beberam, então as bananas, nunca tinham visto
11.21.2009
Será possível deixar isto deixando os outros bem?
Parecia sempre que podia mais, parecia sempre que se sentia bem - vistas de dentro de homens como o João.
De cada vez que lhe pediam mais, dava. De cada vez que se sentia mal, dava (ou dava-se, dava-se na negação do mal que se sentia, como se com isso alegrasse quem queria que se sentisse bem; não alegrava quem isso queria, via-se bem que já só se dava e que já quase só se dava por sentir que quem tentava dar-lhe já não conseguia dar-lhe mais, como se entendesse melhor do que ninguém o difícil jogo das dádivas que todos havemos de jogar um dia, nas résteas do fim).
E isto é estranho porque, perante uma pessoa que já só se dá, vemos que temos ali uma pessoa que, além de boa pessoa, é muito brava: pertence ao compartimento menos estanque das partidas - esse voo livre de quem vai e parece querer, apenas, que fiquemos bem, mais do que pretender aterrar bem do voo livre em que abalou sem querer.
11.20.2009
De atheismo
Viver sem deus é uma possibilidade humana extrema. Para dizer a verdade, no ateu não se condena o ser ímpio, mas o trair o grupo. É por isso que a crónica do ateísmo transcreve a história de uma perseguição contínua e infinita. Teodoro, o Ateu, foi banido do Areópago. Yang Chu foi morto. Wang Chaung foi perseguido. Mais tarde, a expressão latina sine deo veio traduzir o grego atheos. Penso que, quanto ao que anima a alma, o ateísmo não é possível porque é impossível arrancar completamente toda uma humanidade falante da alucinação verbal e das ideias abstractas que emanam a pouco e pouco das palavras. Mais ainda: é impossível arrancar os mamíferos do sonho nocturno sem os tornar loucos. Nenhum corpo de animal pode evadir-se das duas grandes alucinações da fome e do desejo.
Uma emancipação relativa não pode ser chamada liberdade.
A incredulidade apenas pode ser um esforço e também uma coragem.
Gabriel Le Bras dizia: «A sociologia da irreligião constitui o capítulo mais emocionante da história dos grupos.»
É certamente isso o mais heróico.
E também o mais breve.
Chamo ateu àquele que vive sem deuses, cuja alma é isenta de fé, cuja consciência é desprovida de medo, cujos costumes não se apoiam nos ritos, cujo pensamento está a salvo de qualquer referência a deus, ao diabo, ao demónio, à alucinação, ao amor, cuja morte é acessível à ideia de suicídio, cujo pós-morte é nada.
François le Picard, numa pregação que pronunciou em 1551 em Paris, diante da fortaleza do Louvre, na igreja de Saint-Germain l’Auxerrois, declarou: «As pessoas ditas athei são sine deo. Vivem em oblívio de Deus.»
Em 1551, nasceu Geoffroy Vallée em Orleães. Escreveu De arte nihil credendi. Mandou-o imprimir às suas custas e publicou-o com o seu nome. Ambos, Vallée e o seu livro, foram queimados em 9 de Fevereiro de 1574.
O De arte nihil credendi foi escrito no fim da adolescência, tal como o Contr’un de La Boétie. Está cheio de uma certa contra-nostalgia, de uma certa Sehnsucht, de uma certa aspiração efervescente e vaga, de um impulso muito incerto porque ignora ainda que a sua busca é genital.
De arte nihil credendi – Sobre a arte de «acreditar» no nada.
Uma tradução mais exacta seria: Sobre a capacidade de não acreditar em nada.
A invenção de Vallée: o nihilismo é um tesouro.
Deus é um puro nada (purum nihil).
Um simples nome (mera vox).
Um som puramente vocal que paira no ar como um grito de ave (flatus vocis).
Uma ideia abstracta (fictum quid).
Vallée, La Boétie, Rimbaud, extraordinários génios bruscos. Vallée tem vinte e quatro anos quando morre na fogueira.
Vallée é o primeiro libertino.
Sete letrinhas em caixa baixa: écr l’inf. Estas sete pequenas literae misteriosas «écr l’inf», na pena de Voltaire e no final de algumas das suas cartas, significavam: É preciso écraser l’infâme, esmagar o infame, é preciso banir a superstição, é preciso destruir a fé, é preciso extirpar o fanatismo.
Voltaire envelheceu.
A 9 de Janeiro de 1777, já senil, depois de vinte e oito anos de ausência, Voltaire tornou a Paris e encontrou-se com Benjamin Franklin. Voltou-se para o mais velho dos netos de Benjamin Franklin que se chamava Temple. Pousou-lhe as mãos na cabeça. Abençoou-o dizendo em inglês:
- God and Liberty.
A democracia dos Estados Unidos da América conservou Deus nos seus juramentos, nas suas instituições, no seu ensino, nas suas festas, nas suas moedas. Das notas bancárias consta sempre a inscrição In God We Trust. Os contratos de fidelidade contêm sempre a frase One Nation under God. No início do século XXI os cidadãos americanos chamavam Bible Belt aos votos incidindo por duas vezes no nome de Bush.
O patriotismo é muito bonito, mas
11.19.2009
Acima de conde, ele era Pai
11.18.2009
Sim
Podemos dizer, sem remorso, que o mundo é dos que nunca pedem ajuda, mas também não ajudam?
Podemos dizer com Pavese, sem pestanejar, que «tudo o que eles tocam se torna tempo»?
Podemos dizer, de braços erguidos e olhos furibundos, que compraste as casas mas não compraste as almas?
Os escritores são pessoas. Tudo o que dizem é mentira ou teatro. Podemos afirmá-lo sem o esgar horrendo, sem o brilhozinho nos olhos?
Podemos andar por aí sem sobretudo nem chapéu, morrer na praia ou no apeadeiro ferroviário?
Podemos considerar alguma coisa ou alguém e logo a seguir desconsiderá-la, ou até bater-lhe, sem que um pentelho nos trema?
Lev Tolstói confirma: «Sim, podemos.»
11.17.2009
Encontros
Estava um dia de trabalho quente e húmido.
Os outros olhavam em frente, como se faz nos elevadores, eu e Maradona olhávamos para lados opostos (virávamo-nos as caras). Eu, por emoção; ele, porque me reconheceu.
sitemeter again
Há quem ande obcecado pelo sitemeter, pelo contrário, porque tem muitíssimas e valiosíssimas visitas.
Já escrevia Lev Tolstói: «Nos extremos é que está a virtude.»
sitemeter
Average per day - 1122
last hour - 81
Today - 980.
Tomai lá e embrulhai.
*preferido
11.16.2009
Até já tenho medo de acariciar, quanto mais beijar, o meu telemóvel
Jesus, o Suicida
Jesus suicidou-se. Disse Jesus em João, 10, 18:
- Ninguém ma tira [a vida] de mim (nemo tollit eam a me vitam), mas eu, de mim mesmo, a dou (sed ego pono eam a meipso); tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la (et potestam habeo ponendi eam).
No grego de João, Jesus diz mais violentamente ainda:
- Ninguém pode arrebatar-me a psique [alma]. Só eu sou capaz de tomar a minha alma.
11.13.2009
Os velhos enforcam-se nos braços das suas cadeiras nos hospitais com o cinto do roupão.
(Pascal Quignard faz depois os comentários – escólios – a este seu primeiro parágrafo e conclui com o corolário que se segue.)
Todo o homem que ousa comentar a morte que outro homem acaba de se provocar é um miserável.
(P. Q. tem um pensar também etimológico: traduz para um conceito vivo e actual a partir da raiz original da palavra. Insiste pelo livro fora – como faz em todos os argumentos de todos os seus livros em todos os outros casos – no sui-cadere latino e explica o social que está patente nesta criação dos teólogos da Igreja – vide Caramuel. Volta à diferença fundamental entre a «morte», de alguém ou em geral, e «o morrer» de alguém que comanda a sua morte. Liga tudo à liberdade primordial do homem e à sua solidão abissal.)
Ninguém pode queixar-se da vida: ela não retém ninguém. Este argumento repete-se nas obras dos dois Séneca, pai e filho, sob os reinados de Tibério e Nero. O argumento toma também a seguinte forma em Roma: A única razão para louvar a vida é que ela nos oferece a possibilidade de no-la tirarmos. Não se pode falar de servidão quando a emancipação é dada juntamente com aquela. A insubmissão e a submissão são oferecidas num mesmo movimento. Os velhos enforcam-se nos braços das suas cadeiras nos hospitais com o cinto do roupão.
O suicídio é a «morte vivida como morrer» quando esta morte procede directamente da angústia que mora no fundo do corpo.
(O social.)
Em «matar-se» é difícil distinguir o que há nisso de «deixar a vida» e o que tem que ver com «deixar o grupo».
A liberdade política assume quatro formas. Mede-se pelo tiranicídio, pela emancipação violenta, pela anacorese, pelo suicídio.
Matar-se é controlar o aniquilamento.
O que é o aniquilamento?
Para o conteúdo, é a perda do continente. Para os vivíparos trata-se da perda da mãe. Para os seres sociais é a perda da sociedade. Quando o chanceler Hitler começou a exercer o seu poder segundo as prioridades que tinha indicado por escrito, suicidaram-se homens na fronteira espanhola, numa cidade do Brasil, num quarto de hotel em Nova Iorque.
Todo o homem-que-se-suicida reencontrou a sua mãe-que-morre no fundo dele.
[…]
Os países cristãos proíbem o suicídio como sendo irreligioso. Os Estados democráticos censuram-no como sendo uma cobardia. As sociedades psiquiátricas tratam-no como uma doença. As civilizações antigas louvavam nele a coragem. Honravam-no como uma elevação moral. Os antigos Romanos diziam: Foi a maior das deusas, a Natureza, que nos deu juntamente com a vida a possibilidade de nos livrarmos do mundo que ela engendra. A morte voluntária é a possibilidade humana constante, sempre ao alcance da mão, o primeiro socorro oferecido ao sofrimento, o fragmento de instante sempre livre para largar o grupo e cortar o tempo. Horácio escreveu: Mors ultima linea rerum. A morte é a última linha fronteiriça a partir da qual podemos viver ou não num mundo. A liberdade de o homem se matar foi perdida no império de Constantino juntamente com todas as liberdades individuais. Quando o cristianismo rendeu o imperialismo, Deus tornou-se o proprietário das vidas escravas. Em boa verdade, todos os escravos, mesmo os soldados, estavam proibidos de se suicidarem. No respeitante aos escravos, matarem-se atentava contra a propriedade privada. No respeitante aos soldados, o suicídio equivalia à deserção. Nos dois casos, trata-se de uma quebra de contrato do serviço social.
(O social e o ateísmo.)
O suicídio é certamente a última linha na qual pode vir escrever-se a liberdade humana. Talvez seja o seu ponto final. O direito de morrer não está inscrito nos direitos do homem. Tal como o individualismo também não o está. O amor louco não está lá inscrito. O ateísmo não está lá inscrito. Estas possibilidades humanas são demasiado extremas. São demasiado anti-sociais para poderem ser admitidas no código que pretende reger as sociedades. Porque um homem nasce crente como um coelho é encandeado pelos faróis.
Se o ateísmo é a ponta extrema da individualização dos seres humanos, o suicídio é o ponto extremo da liberdade humana.
Brontë, Kleist, Kafka, Proust, Mishima: o suicídio como obra, como cumprimento da obra, como marca do seu acabamento, como ponto.
(Pascal Quignard, La barque silencieuse, Seuil, 2009)
11.11.2009
Suicídio

Há também este livro. A Assírio & Alvim informa que faz uma venda jeitosa no Chiado, deste e de outros:
A partir das 19h00 de hoje, e até ao dia 31 de Dezembro de 2009, livros, livros e mais livros no Chiado. Livros mais baratos, livros esgotados, livros impossíveis de encontrar, livros de artista, livros de tiragem limitada, e ainda, postais, cartazes e outras surpresas. Um novo projecto temporário da Assírio & Alvim no Chiado, desta vez na Rua do Carmo, 35, loja 12 (antiga Bolsera). De segunda a sexta-feira das 12h00 às 19h00, e ao sábado das 10h00 às 19h00. Visite-nos.
Amanhã não falte: voltaremos com mais textos de Pascal Quignard, por mim traduzidos.
Robert Enke - a morte impetuosa
A palavra magnífica e líquida de suicídio faz a sua aparição no coração do mundo barroco. Até então os juristas franceses, assim como os padres no seu latim, usavam perífrases. Falava-se de morte «voluntária» ou de morte «impetuosa». A religião e a superstição decerto não desejavam que este acto definitivo se tornasse um nome comum. Ao recusarem-lhe um lugar no léxico, esperavam talvez repelir o pecado para fora do real. Mas que outra coisa faz Lancelot, julgando que Guenièvre está morta, ao prender uma corda ao arção da sua sela? Que fazia Rolando em Roncevaux, no cantinho do seu rochedo, ao renunciar à fuga e ao recusar a rendição? Para designar «o homicídio daquele que não é um terceiro», os teólogos da Igreja de Roma conceberam uma palavra latina juntado sui e caedes. À letra: de si o homicídio. Em 1652, Caramuel intitulou De suicidio um capítulo da sua Theologia moralis fundamentalis. A palavra foi em primeiro lugar utilizada na Inglaterra, depois em França e na Itália, passando em seguida para a Espanha.
11.09.2009
11.07.2009
Este parágrafo de Pedro Mexia levou-me a pensar, inevitavelmente, em Tchékhov.
A língua não tem necessidade de ser respeitada mas antes atacada e agredida.
Balada de Outono, ou: Até já tenho medo de abrir a caixa do correio e ouvir o telefone, ou de ter algum primo desconhecido que conheça algum primo ou
11.06.2009
O Muro (lembrete)

É só no dia 9 do corrente o aniversário da sua Queda, mas preparem desde já os vossos textos porque as wikipédias também erram ou nem sempre trazem tudo. Farei o mesmo para o primeiro de janeiro, o 25 de abril, o primeiro de maio e o santo António, etc. Avanço com umas achegas: a União Soviética decretou, pela mão de Mikhail Gorbatchiov, em finais da década de 80, que a Rússia deixava de se responsabilizar pela União Soviética e vice-versa, pelo que, daí à demolição do Muro foi um pulo. (É por isso que os comunistas do PCP português - passem as redundâncias - têm como seu inimigo principal Mikhail Gorbatchiov, mas não estão sozinhos uma vez que Mikhail Gorbatchiov é praticamente detestado por toda a gente menos pelos organizadores de conferências). Mikhail Gorbatchiov, portanto e contra a opinião do PCP portugês que nunca gostou dele, fez uma perestroika, uma glasnost e, quatro anos depois, mostrou-se desinteressado pelo que se passava fora da Rússia e que dantes era a menina dos olhos da União Soviética, a saber «as duas Alemanhas», a Polónia, o Báltico e assim... Mikhail Gorbatchiov não gostava de aberrações («duas» Alemanhas em finais do século XX?) e foi como se dissesse: preparem tudo, daqui a uns meses aquilo vai abaixo. Sim, Mikhail Gorbatchiov disse-o e o Muro - pimba - caiu.
11.04.2009
11.03.2009
Lição da planície
Outubro
«A expansão do ideal leninista de tomada e de conservação do poder fez-se, em boa parte, instrumentalizando a simpatia de um grande número de intelectuais, por regra influentes nos seus países de origem, que ajudaram a disseminar pelo mundo um certo eco da legitimidade, da grandeza e da apoteose de OUTUBRO.» (Rui Bebiano na capa do seu livro Outubro, Angelus Novus, Coimbra, 2009)
Já tinha lido os textos no blog de RB, mas a inevitável dispersão da leitura ao longo dos dias (ou meses) não permitia encontrar a unidade que confere personalidade a um livro de ensaios monotemáticos. O livro tem ainda a vantagem de ter sido revisto e, também, de concentrar numa bibliografia final os grandes livros de referência (27), uma escolha muito criteriosa de RB que peca, no entanto, por não incluir autores russos (soviéticos ou não, favoráveis ou desfavoráveis), mas isso acaba por ir ao encontro da intenção manifestada na epígrafe da capa: mostrar a expansão do ideal de Outubro por parte de intelectuais estrangeiros (não russos) com destino a estrangeiros (não russos). Ou seja, o livro trata menos de um Outubro histórico e real e mais de um Outubro «mítico» como foi e é visto pelos intelectuais ocidentais, pró ou contra. Fala do que conhecemos, e isso é bom. É um livro vermelho (só de capa) que não exige pensamentos obrigatórios.
A verdade foi que
Se produjo así el extraño caso de que Estados Unidos, por un lado, autorizó los viajes del mayor número de personas portadores del virus y, por otro, prohíbe la adquisición de equipos y medicamentos para combatir la epidemia. No pienso, desde luego, que esa haya sido la intención del gobierno de Estados Unidos, pero es la realidad que resulta del absurdo y vergonzoso bloqueo impuesto a nuestro pueblo. (Fidel Castro)
«s»«o»«c»«i»«a»«l»«i»«s»«m»«o» «r»«e»«a»«l»
11.01.2009
Crónicas de domingo, ou: num dia em que não se trabalha, consegue-se pensar um pouco.
Suspiro e ópio. O que Marx realmente escreveu em 1844 foi: «A religião é o suspiro da criatura oprimida. Ela é o ópio do povo.» A justaposição destas duas frases, a existencial e a política, coloca a religião no mesmo plano das forças e das fraquezas da carne. É esta a arma dos ateus. Um ateu não é um incrédulo. Se nega Deus é porque o declara morto, e se o declara morto é porque pressupõe a existência finada Dele ou Disso, desse irreal presente. Chamo à crónica Saramago, um ateu, só para exemplificar. Os meus ateus preferidos são Stendhal, Sade, Baudelaire, Tchékhov, Schopenhauer, Nietzche, Freud. Não Voltaire nem Saramago. Saramago, como é natural, foi atacado por religiosos. Os religiosos não existiriam sem ateus, nem os ateus sem religiosos, porque não há ateus sem Deus. As coisas estão neste pé há muitos séculos, e é por isso que os argumentos de ambos nesta polémica parecem superficiais e banais. Mas não, de tão profundos e antigos banalizaram-se, simplesmente. De um lado estão Moisés, Jesus e Maomé, do outro o exército daqueles para quem Moisés, Jesus e Maomé não dizem nada, apenas Deus ausente diz tudo. O ateísmo é uma guerra, a religião é uma guerra. Entre eles não pode haver tolerância. Quase não valia a pena o jornal Público chamar um escritor estrangeiro de renome, Richard Zimmler, para dizer tantas banalidades e superficialidades para reiterar que tudo nesta polémica tinha sido banal e superficial. Está tudo na ordem das coisas, e a única frase válida de Zimmler é aquela em que, do campo dos religiosos, defende tréguas: «Os religiosos portugueses não deveriam responder a Saramago.»
Gott ist tot. De pegada em pegada, lá vamos chegando. Chegando onde? A Deus. À sua morte anunciada por Nietzche e não só. Sem esta morte arduamente conquistada pelos ateus ao longo dos séculos, Deus teria ganhado o jogo por falta de comparência do adversário mas extinguir-se-ia de verdade por falta pura e simples de campeonato.
Crash de 1929. Passou há poucos dias uma efeméride a que pouca gente se referiu. «Nada actual», devem ter pensado os pensadores, mas é-o muito, é mais do que nossa mãe ainda viva: o crash de 1929, que provocou mais suicídios do que a queda do Muro e a angústia da longa noite islandesa juntos. Podemos entrar numa Grande Depressão por causa disso? Não parece, alguma coisa se aprendeu com 1929. Naquele tempo «corriam rumores de que nos hotéis do centro perguntavam aos hóspedes se queriam quarto para dormir ou para se atirarem pela janela» (John Kenneth Galbraith). Tal como agora, o rebentamento da bolha (a tal crise fodida que teria por consequência uma guerra mundial e que só essa guerra haveria de resolver) foi antecedido por uma década de expansão contínua (o taylorismo e o fordismo), de alegria jazzística, de criminalidade honrada, de baixíssimas taxas de desemprego, de frigoríficos e carros para todos, casas, vivendas e lofts, de crédito fácil e de compras de acções a prazo ao alcance de todos mediante uma pequena fiança, da ascensão dos trusts a píncaros nunca vistos. E a bolsa sempre a subir, os lucros sempre garantidos. Não sou economista para explicar o mecanismo financeiro desta artificiosa comédia de enriquecimento e do seu desenlace trágico, só sei, e toda a gente sabe, que as acções deixaram de corresponder aos lucros operativos das empresas, que os especuladores financeiros tinham agarrado na coisa e dado asas à sua fantasia diabólica e criminosa, desgraçando muita gente e o país. Isso não lhes faz lembrar nada, leitores? O mecanismo foi o mesmo que subjaz actualmente às hipotecas subprime, à especulação com as empresas da net, aos bónus escandalosos, aos silêncios (antes do estouro) governamentais e administrativos. Aprendeu-se alguma coisa com o crash de 1929, sabendo que ele é mais do que nosso pai ainda bem conservado? Acho que sim: nos EUA, centro de tudo, diz-se que a economia está a recuperar, mas está-lo-á realmente ou, pelo contrário, fantasiosamente, com piruetas e aventuras financeiras? Não se esqueçam que as subprime já entram novamente e com bastante força na dança feérica do grande baile financeiro. Não esqueçamos que, nos EUA de 1929 , «o crash não se limitou a esse dia [30 de Outubro]. A bolsa entrou em queda, a intervalos, desde essa semana até ao dia 8 de Julho de 1932, quando atingiu o seu nível mínimo, o mesmo nível que tinha no ano de 1800. Até 1954, a bolsa não recuperou os níveis de 1929.» (Fernando Trías de Bes). Vamos esperar o fim da aventura e, optimistas, não recear pela recaída do cancro. Conclusão: o rebentamento das bolhas especulativas é o culminar de um orgasmo a que se segue sempre uma murchidão. Esperemos pela erecção seguinte, se entretanto não advier a doença, a impotência, a morte e o cadáver.
O Benfica, Uma Aventura, Correio da Manhã. Uma crónica de domingo não o seria se não incluísse o futebol e as curiosidades. Benfica: Se não nos tivessem anulado aquele golo limpo que daria o empate, outra águia cantaria. Uma Aventura, a Bíblia dos chavalos crédulos: Maria Isabel Alçada é uma mulher simpática e rica (do meu ponto de vista), pobretana do ponto de vista de um banqueiro de topo, remediada do ponto de vista de vossas excelências meus leitores. Não sei se ela já estava no Plano Nacional de Leitura ou em qualquer gabinete do ME quando 4-quatro-4 «umas aventuras» passaram a ser leitura obrigatória para os putos das escolas (aumento de vendas espectacular, penso eu). Partindo do facto que as «umas aventuras» são uma merda, do ponto de vista pedagógico, literário, psicológico, histórico e até geográfico, pobres na escrita e no enredo, sem imaginação, sem piada (li muitas por obrigação de pai), estupradoras muitas vezes dos delicados cérebros infantis (em literatura não há nada inócuo), e nada que se compare com os belos livros infanto-juvenis da escritora Alice Vieira, por exemplo, como é que vai ser agora? Os livros da sra. Ministra continuarão a ser obrigatórios ou recomendados, mesmo que não tenha sido a sra. Ministra a promovê-los como leitura escolar quando ainda não era ministra? E, já agora, o outro frasco literário para meter a resistência ao fascismo, Felizmente há Luar, também vai continuar? Não haverá outros frascos mais credíveis? Então e eu? Eu também quero ser leitura obrigatória, até porque já tenho saído no Correio da Manhã pela mão talvez amiga de Francisco José Viegas. Bem, ele amputa-me lá as frases, pontapeia-mas do contexto, mas eu não me importo, dou tudo por 89 caracteres+espaços no Correio da Manhã, curvo-me como um salgueiro-chorão.
10.30.2009
TRAJOSMONTES, CARALHO!
- Com licença dos de Gouvães, caralho.
- A juíja que bote majé pracá as armas, que são minhas, caralho. E o bispo que não me apoiasse, não, que lhe zupava.
Demagogia de sulista, porque também há transmontanos calmos, inteligentes e civilizados: Isaltino Morais (inocente) e Armando Vara (inocente).
Sete, hora nova, são horas de ir botar o gado. Bem hajam, Deus os guarde.
10.28.2009
Pastoral Portuguesa
Se há coisas que me espaventam, esta é uma delas: um blog sobre livros e outras representações artísticas que anda sempre muito bem informado, sobretudo no que diz respeito aos anglo-saxónicos e às maioneses, que é profundo e original mas foge da profundidade mortal praticando a respiração irónica e satírica, que é provocador mas, mais ainda, provocante, provocante como uma sereia a quem tivessem cortado as postas do rabo (estou a imitá-lo), que foge a sete pés das imposições da clique cultural em vigor, ora chatamente académica e sonolenta, toupeira mesquinha e cega que só fabrica montes de merda, ora alegre e publicitária, toda bolaños, cains, e bíblias, esse blog, que já se vinha desleixando ultimamente como uma menina romântica abandonada pelo príncipe chulo (estou a imitá-lo), informa agora que «este blog acaba aqui». Se não for uma figura de estilo, esta frase é uma grande merda para os habitués.
10.26.2009
Paradoxal
10.25.2009
Aos domingos há diversos
Quando as fés falam. Não viu o debate Carreira das Neves-Saramago na SIC? Fez bem. Ambos jogaram à defesa e, quando assim é, o jogo afunda-se num anti-jogo aborrecido que em nada dignifica a dinâmica do jogo. JPT, ao transcrever grosso modo Carreira das Neves, sintetiza muito bem os parâmetros que a Igreja nos quer impingir com vista à desculpabilização e justificação dos lados negros da Bíblia: a Bíblia é simbólica, é literatura, são imagens, e nós estamos lá com as nossas notas de rodapé para guiarmos os leitores.
Juventudes. As juventudes são fabricadas pelos velhos. As juventudes são ignorantes e decorativas, e também sonsas e carreiristas se forem comunistas (ora, querem lá ver que não sabem o que é o gulag!). As juventudes não percebem o que lá foi nem estão preparadas para o que aí vem. O BE não precisa de juventudes porque ainda é jovem, mas lá virá o tempo implacável em que. Qual é o peso real das juventudes? Nenhum.
Até estou de acordo com isto, menos com o atalho habitual para onde derivam ultimamente todos os textos desse blogue e que lhe roubam alguma independência e objectividade.
(O eterno jovem Passos Coelho é a prova encarnada de que as juventudes não têm prazo de validade.)
(Daniil Harms, A Velha e Outras Histórias, Assírio & Alvim)
10.22.2009
Ainda Saramago, pela última vez, depois voltamos à literatura
10.21.2009
Ainda isto:
Pôs-se em pé Moisés, na porta do arraial, e disse: Quem é do Senhor, venha a mim. Então se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi.
E disse-lhes: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa: e passai e tornai pelo arraial, de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu próximo.
E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés: e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens.
Porquanto Moisés tinha dito: Consagrai, hoje, as vossas mãos ao Senhor; porquanto cada um será contra o seu filho, e contra o seu irmão: e isto para ele vos dar hoje bênção.
A Bíblia pode ser lida de outras maneiras que não as: religiosas, patrióticas, dogmáticas, respeitáveis, figuradas, simbólicas, poéticas, fantasistas. Pode ser lida de uma maneira simples, com toda a boa-fé, sem os subterfúgios do pensamento elevado dos Valupis. Perante certos textos da Bíblia, como este acima, em que Moisés chama a si os filhos de Levi, manda os filhos de Levi matar os que não o eram, e os filhos de Levi matam efectivamente uns 3000 (diz o Livro)... que sentido figurado pode ser dado a isto? O único sentido, para as pessoas simples, é o de que matar os «outros» em nome do Senhor não é pecado, é correcto.
Saramago é enxovalhado exemplarmente, em talentosa prosa, por Valupi. É por ele acusado, no essencial, de ser um senil que não sabe pensar e só diz asneiras, que não sabe o que são «sentidos literais e figurados, denotação e conotação, sinal e símbolo, fantasia e realidade, histórias e História». Depois ressalva-lhe (a Saramago) a literatura... Então os livros dele não são um produto do seu pensamento? Quem é que não sabe pensar, Valupi?
Somos pessoas simples, até de espírito (como a Bíblia gosta), tudo o que fazemos de mal é porque Deus manda, estamos desculpados; e o que fazemos de bom é porque somos espectaculares.
Saramago
E vendo Moisés que o povo estava despido, porque Aarão o havia despido para vergonha entre os seus inimigos.
Pôs-se em pé Moisés, na porta do arraial, e disse: Quem é do Senhor, venha a mim. Então se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi.
E disse-lhes: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa: e passai e tornai pelo arraial, de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu próximo.
E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés: e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens.
Porquanto Moisés tinha dito: Consagrai, hoje, as vossas mãos ao Senhor; porquanto cada um será contra o seu filho, e contra o seu irmão: e isto para ele vos dar hoje bênção.
Agora os literatos beatos vão dizer-me que aquele «matar» é simbólico, que se trata apenas de obrigar a «renunciar à cidadania» ou qualquer coisa do género. E os hipócritas vão dizer que, depois, o Senhor acaba por perdoar a todos, inclusive aos mortos na matança. Garanto que, no Êxodo, tal não acontece, que o Senhor apenas instruiu Moisés no sentido de não se misturar com os «outros», de não tomar mulheres das filhas dos «outros», porque elas não mais faziam do que prostituir-se após os seus deuses. E o rosto de Moisés resplandeceu.
10.20.2009
O Anticristo e o Idiota
«O eurodeputado social-democrata Mário David exortou hoje o escritor José Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir “envergonhado” com as recentes declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia.» (Público de hoje)
10.16.2009
Morrer de fome uma ova
Quem é?
10.15.2009
Jovens monárquicos, atentai neste príncipe, ele pode muito bem vir a ser o próximo rei de França
Como não tenho visto (lido) nada nos blogues sobre o príncipe Jean Sarkozy, vou explicar sucintamente:Tem 23 aninhos e é filho do presidente da República francesa (uma república sólida, tal como a portuguesa) e graças a manobras da Corte (do Élysée) foi «eleito» presidente da maior praça financeira da Europa (pública). Em sua defesa saiu o papá e os amigos da família Sarkozy. Uma tal madame Isabelle Balkany, vice-presidente do conselho-geral de Hauts-de-Seine (organismo público) e senhora próxima da família Sarkozy, usa fortes argumentos monárquicos: «il est le meilleur d'entre nous». Os outros argumentos dos outros aristocratas (como, p. ex., «La France a peur de sa jeunesse») em defesa do «eleito» príncipe Jeannot são do mesmo teor rigoroso.
10.12.2009
A longa noite eleitoral
10.10.2009
Eleições autárquicas
Isto não é propaganda eleitoral, porque está proibida e sei que estamos todos numa fase de profunda reflexão. Não posso calar, todavia (ou contudo, ou porém), que morei na Linha de Sintra e que o Fernando Seara me dava sempre qualquer coisa em todas as eleições: possuo ainda dois magníficos aventais de pano cru, boa cópia de esferográficas de óptima qualidade, bonés de praia perfeitamente eficazes no combate às insolações, outros gadgets muito úteis, afora as promessas...
Agora que mudei para a Margem Sul, o que me dão os comunistas? Papéis, papéis, brochuras, panfletos, papéis, música de arruada. É evidente que não se exige neste deserto pobre nenhum Valentim Loureiro nem máquinas de barbear ou de café, mas uma esferograficazinha, afora as promessas, custava alguma coisa, comunistas?
10.09.2009
Palhaços
10.07.2009
10.06.2009


O texto que se segue é para justificar a minha viragem de casaca: dantes pensava que era impossível compreender Gógol sem conhecer a sua vida. Agora não, antes pelo contrário, e apesar das tentativas para fundirem as duas coisas empreendidas por Nabokov e por Andrei Siniávski.
Calhou a Gógol renovar a prosa russa, fazê-la «popular», prepará-la para os génios russos da narrativa que se lhe seguiriam. Fê-lo pela arte da caricatura, de que ele próprio se envolvia. O homem tinha o instinto artístico de um maluco, o nariz de um roberto dos bonecreiros, manias indumentárias que chegavam a fazer dele um palhaço, ademanes de arquiduquesa de opereta, comportamentos intempestivos de gógol. (Gógol, em russo, é galispo, pavoncino, verdizela, uma ave de crista muito chibante. A palavra evoca sobretudo a expressão khodit’ gogólem, ou seja «armar-se em galispo», pavonear-se.) Há um episódio relatado por Serguei Akssakov em História da minha amizade com Gógol que poderia perfeitamente figurar no Diário de um Louco: «Quase gritei de espanto. Estava ali à minha frente o Gógol, disfarçado com uma fantástica farpela: em vez de botas, meias russas até meio da coxa; por cima da camisa de flanela, uma casaquilha de veludo; tinha enroscada ao pescoço uma comprida écharpe multicor, e na cabeça um turbante de veludo cor de framboesa bordado a ouro, como usam as mulheres da Mordóvia. Gógol estava a escrever, absorto no seu trabalho, e nós, visivelmente, fomos incomodá-lo. Esteve muito tempo a olhar para nós sem nos ver, como disse Jukovski; da sua indumentária é que não tinha qualquer vergonha.» Ele próprio escrevia aos amigos coisas como esta: «Ajuda-o […] a escolher uma peruca para mim. Quero rapar a cabeça, não para que o cabelo me cresça mais forte, mas pela própria cabeça: talvez isso ajude à transpiração e talvez a inspiração brote melhor. Porque a minha inspiração está a embotar-se, às vezes sinto a cabeça presa numa nuvem pesada, tenho de a dissipar constantemente; e tenho tanto que fazer. Há agora perucas de um modelo novo, adaptáveis a todas as cabeças, sem molas de metal, em borracha elástica.» (Carta de 1838, escrita de Roma para Paris ao seu amigo Danilevski.)
Pela observação exterior, puramente exterior, dos seus gestos, palavras, comportamentos e «cenas», muitos consideravam-no louco, ou pelo menos tarado. A sua estranha abstinência sexual também ajudava a isso. Partindo das suas poses exteriores, e não só, foi um pulinho de pardal para que a crítica e a cena cultural da época expandissem para a vida e para a arte de Gógol (para o que escreveu nos seus livros) os conceitos de «caricatura de si mesmo», de «nada de sério», de «falso»: falso santo, falso eremita, falso homem, falso demónio, falso escritor. Mas é tudo tão superficial e arbitrário na crítica e na chamada cena cultural de uma época, de qualquer época, sempre comandadas pelos seus funcionários limitados, que houve que esperar muitos anos para que viesse ao de cima o verdadeiro Gógol, sem as inúteis peias biográficas. Afinal estou de acordo com Rogério Casanova quando diz que podemos perfeitamente ler Gógol sem sabermos nada da sua vida. E muito menos as cenas que relato acima.
(As citações foram traduzidas de À Sombra de Gógol, de Abram Tertz / Andrei Siniávski)
10.04.2009
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